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Você acredita que existe atualmente uma consciência por parte dos pais em relação a essa preocupação ou ainda estamos longe disso?

Em minha pesquisa detectei que apenas 36% das crianças menores de 4 anos usavam algum tipo de ASI no trajeto até a escola. E dessas, apenas 41% usavam o ASI adequado para sua idade e peso. Ou seja, estamos muito longe de usar cadeirinhas e também longe da utilização correta, o que demonstra uma longa caminhada de melhorias a percorrer. Na mesma pesquisa, detectei que 40% das mulheres motoristas e 60% dos homens não usavam cinto. Quando o pai não usa cinto, a chance da criança não usar cadeirinha aumenta muito.

Muitas pessoas alegam que as cadeirinhas são caras. De fato também acho que poderiam ser melhores e mais baratas. No entanto, percebemos que em nosso país a cultura de paixão pelo carro não implica em segurança. As pessoas compram carros com som, rodas de liga leve e motores possantes, mesmo que não tenham airbags ou freios ABS, itens obrigatórios em mercados mais exigentes. Infelizmente, nossa legislação e nossos governantes são coniventes aos interesses das montadoras, que sacrificam nossa segurança com carros onde os itens de segurança são considerados opcionais de luxo e não primeira necessidade nas ruas e estradas violentas do Brasil.

 

O que prevê o Código de Trânsito Brasileiro em relação ao não uso da cadeirinha?

No código de trânsito trata-se de infração gravíssima, segundo artigo 168 (multa de R$ 191,54 e 7 pontos na carteira com retenção do veículo até resolução da infração). No código da vida, que supera a frieza e indiferença da lei, o transporte de criança sem ASI é exposição a risco de morte ou lesão grave. Para nós pediatras, não usar ASI equivale a negligenciar a necessidade de segurança da criança, o que pode configurar como maus-tratos infantis. A pena imposta pela vida costuma ser bem pior que a imposta pela lei. Certamente é mais fácil tolerar o choro da criança transportada a contragosto na cadeirinha do que o choro causado pelas lesões e mortes decorrentes do não uso da cadeirinha.

 

Em relação ao cinto de segurança, qual é a importância de se conscientizar as crianças em relação ao uso do dispositivo?

Já discutimos duas coisas importantes sobre o cinto de segurança. Primeiro, o uso de cadeirinhas promove o uso de cinto de segurança quando a criança cresce. Segundo, somente o cinto de segurança de três pontos deve ser utilizado. O cinto abdominal só deve ser usado para instalar bebê conforto ou cadeirinha que possam ser instalados apenas com ele, o que é raridade no mercado. E daí o que fazer? Na prática, não há muito a fazer, a não ser usar apenas os cintos de três pontos. Se for necessário transportar três crianças no banco de trás, a opção mais adequada é ter cinto de três pontos em todos os assentos traseiros, o que pode inclusive implicar em trocar de carro para algumas famílias.

Os pais devem estar atentos ao uso correto de todos os ASI e depois do cinto, pois a criança demora a adquirir capacidade de julgamento apurada e acaba cometendo erros que podem comprometer sua segurança na cadeirinha ou usando o cinto quando mais velha.

O sábio Salomão nos ensina que devemos indicar o caminho à criança para que, ao crescer, ela não se desvie dele. Os pais devem saber que o exemplo é mais forte que as palavras. Sendo assim, os pais primeiramente devem utilizar e exigir que qualquer adulto no carro use o cinto também. Dessa forma, a criança aprenderá desde cedo que o uso do cinto é necessário. Também os pais devem ser os primeiros a respeitar leis de trânsito, não beber ao dirigir e limitar a velocidade. Sendo bons motoristas, criaremos bons motoristas.

 

 

Dr. Sergio R. Lopes de Oliveira é professor de pediatria do departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM), chefe do Serviço de Pediatria do Hospital Universitário de Maringá. Pesquisa sobre o uso de cadeirinhas desde 2006, obtendo com sua pesquisa os títulos de mestre pela UEM e doutor pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

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